O que está por trás do heteropessimismo e como ele afeta relações

O sentimento de frustração e decepção com relacionamentos heterossexuais por parte, principalmente, das mulheres tem impactado as relações

Gabriela Medeiros Psicóloga

Você, com certeza, já deve ter se deparado com algumas mulheres reclamando dos últimos relacionamentos que tiveram ou das pessoas com as quais se relacionaram. Esse sentimento coletivo de desesperança que, muitas vezes, parece permear as relações heterossexuais, ganhou um nome: heteropessimismo.

O termo, cunhado em 2019 pela escritora Asa Seresin, descreve uma atitude de desencanto, constrangimento ou desespero em relação aos relacionamentos heterossexuais. A ideia se popularizou rapidamente nas redes sociais, onde muitas mulheres passaram a expressar suas queixas e notaram um movimento coletivo, não mais individual.

Apesar da recente popularidade, Gabriela Medeiros, psicóloga especialista em relacionamentos, afirma que essa sensação, na verdade, não é exatamente uma novidade. Antes do termo ganhar um nome, era comum ouvir mulheres com queixas como “Homem não presta” ou “Queria ter a autoestima de um homem hétero”, que, no fundo, expressam uma desconfiança em relação aos homens e um incômodo com as desigualdades afetivas entre os gêneros.

“Esse fenômeno afeta especialmente as mulheres, que, infelizmente, ainda são, na maioria das vezes, as principais vítimas de violência, infidelidade, desrespeito, experiências negativas em relacionamentos e desigualdade de gênero”, afirma a especialista.

Vida romântica e sexual

Ao mesmo tempo em que o heteropessimismo impacta diretamente a vida romântica e sexual das mulheres, elas, com a independência social e financeira, tornaram-se menos tolerantes a relações em que não se sentem valorizadas, admiradas e respeitadas, seja no campo emocional, seja no sexual.

“Diante desse cenário, muitas passam a evitar vínculos afetivos com homens e exploram caminhos alternativos: algumas redescobrem ou exploram a bissexualidade, outras optam por relações sem compromisso afetivo, e há também aquelas que escolhem o ‘celibato’ como forma de preservar sua saúde mental e emocional”, comenta Gabriela.

De acordo com a psicóloga, o fortalecimento das redes de apoio e afeto entre mulheres também faz com que se tornem fontes significativas de acolhimento e bem-estar.

Cansaço coletivo

Esse cansaço coletivo vem, por vezes, da repetição de histórias e narrativas frustrantes ao lado de homens. Seja pela forma como eles lidam com a relação, seja pela maneira como tratam as mulheres, ou como interpretam as diferenças de gênero ou se tornam agressivos… Não sobram razões para que o heteropessimismo encontre terreno e força no imaginário e nas vivências femininas.

“Não acredito que o heteropessimismo deva ser ‘revertido’, pois o enxergo como um avanço cultural. Ele é um sinal de que as mulheres estão questionando seu papel social e rejeitando dinâmicas que antes aceitavam por pressão ou convenção”, pontua a psicóloga.

Gabriela também comenta que a romantização do amor heterossexual tradicional tem contribuído para o sofrimento psíquico de muitas mulheres, resultando em ansiedade, depressão e baixa autoestima. Historicamente, espera-se das parceiras um conjunto de comportamentos e sacrifícios que, raramente, são exigidos dos homens.

“É essencial que os parceiros assumam a responsabilidade por sua própria transformação: desconstruindo comportamentos machistas, revendo privilégios e aprendendo a se relacionar de forma mais empática, justa e emocionalmente engajada. Só assim os vínculos poderão deixar de ser fontes constantes de sofrimento para as mulheres”, acrescenta a psicóloga.

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